Uma Sociedade Madura Para a Intervenção Divina
Poucas narrativas no Antigo Testamento carregam um peso de advertência tão dramático e incandescente quanto a súbita e brutal destruição de Sodoma e Gomorra. Transformado em metáfora eterna de juízo incontestável (2 Pedro 2:6), o relato contido em Gênesis 18 e 19 não nos expõe um Deus cujo temperamento subitamente saiu do controle; ele ecoa e demonstra categoricamente que a santidade gloriosa do Céu jamais assinará, no decurso da contínua rebeldia humana, um tratado de rendição pacífica e passiva com os horrores da corrupção e das atrocidades sociais do pecado.
A malícia de Sodoma atingiu níveis indizíveis. Em Gênesis 18:20, a "medida da iniquidade" fez com que o seu "clamor (ze'akah)" chegasse e ofendesse majestosamente as cortes imaculadas de Javé. O comentarista Derek Kidner, da reverenciada Série Cultura Bíblica, assinala muito bem o realismo cru e contundente em que as Escrituras enquadram tais episódios: em Gênesis, a paciente obra salvadora e suportadora de Deus corre concomitantemente a limites morais dos quais ninguém zomba de modo indiferente. Não era uma cidade "apenas confusa"; era agressivamente idólatra, lasciva e de violência sexual militante, orgulhosa e intolerante na porta contra o viandante (Ezequiel 16:49-50). O palco estava definitivamente armado para a manifestação solene do "Juiz de toda a terra".
O Ministério Solitário: Abraão e o Trono
É formidável como o clímax da condenação precede de perto o monumental exercício de intimidade espiritual de Abraão. No capítulo 18, vemos o Deus encarnado, o Senhor (Javé), paramentado na forma de mensageiro angelical, descendo para conferenciar abertamente com Seu crente aliançado e escolhido (Gênesis 18:17).
A Coragem da Intercessão Aliançada
A revelação sobre o derramamento das taças de juízo provocou em Abraão algo que os puritanos chamariam de sincera e agonizante aflição de alma que não desiste de lutar pela misericórdia onde apenas as chamas deveriam arder! "Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; [...] Não faria justiça o Juiz de toda a terra?" (18:25).
A intercessão vigorosa de Abraão não reflete de modo algum um homem barganhando por vantagens mundanas, mas, indubitavelmente, retrata o coração pastoral ansioso e confiante nos sublimes absolutos divinos. Longe de sentir indiferença e "dar de ombros" perante as milhares de vidas daquelas planícies depravadas, o patriarca ora apaixonadamente na brecha pelas planícies do pecado onde seu infeliz sobrinho, Ló, tinha fincado sua frágil lona outrora (cap. 13). Mas na aritmética impiedosa e trágica da destruição final, não se contaram isoladamente nem dez seres justificados debaixo daqueles céus sujos de degradação.
A Biografia de Gelo: O Lento Resvalar de Ló
Do monte onde o patriarca orava em segurança teológica e espiritual, voltamo-nos para os vales onde a fumaça começou a arder e onde o foco trágico resplandece ao descrever a fraqueza covarde do homem amoldado. Como pode alguém rotulado posteriormente pelas próprias escrituras inspirado como "justo" (2 Pedro 2:7-8), acabar desolado, sem bens, fugindo escorraçado, viúvo aos pedaços do inferno das cidades pagãs das planícies?
O mundanismo nunca ocorre da noite para o dia. A "marcha decadente" de Ló se traça topograficamente num dos alertas práticos contemporâneos mais brilhantes nos púlpitos da igreja cristã, delineado por Charles Swindoll:
- Escolheu as campinas reluzentes atraído pelos olhos gulosos e mudou as suas humildes e móveis tendas até as portas de Sodoma (Gn 13:10-12)
- Entrou pelas portas e habitou dentro fixando lá irrefutáveis alicerces habitacionais no sistema caído (Gn 14:12)
- E fatalmente sentou-se à porta assumindo magistratura administrativa conformada perante seus vizinhos depravados no interior da cultura moral necrosada de Sodoma! (Gn 19:1).
Ló tentou desesperadamente conciliar aquilo que a cruz atesta sempre de antemão: O reino dos céus ou o governo deste século presente governado pelo iníquo. Era uma alma dividida perigosamente e que tentou contemporizar as agressões extremas da massa rebelde que se amontoava na sua porta e tentou assediar seus divinos hóspedes anjos, querendo entregar covardemente até mesmo as próprias filhas virginais por conta da preservação da moralidade e status civil! A frouxidão do seu apego tornou patéticas e inúteis as palavras que tentou utilizar de última e desesperada tentativa para exortar os próprios genros. Ló carecia de toda verossimilhança pastoral da retidão; para eles, ele exclamava absurdos de um velho sem moral. (Gn 19:14).
Mulher de Ló e a Fuga Atrasada
Tão cativo aos luxos das campinas apodrecidas ele já estava, que precisou ser forçosa e categoricamente empurrado e agarrado em amor pelos anjos aos solavancos para o alvor da salvação montanhosa. A incalculavelmente famosa passagem de encerramento foca nos mortais resquícios sentimentais de sua esposa moribunda no caminho (19:26). Transformada em assombrosa estátua de sal para os desolados, seu congelamento ensina aos milênios uma assustadora máxima das escolhas absolutas divinas relembrada enfaticamente séculos depois por Jesus (Lucas 17:32): uma libertação jamais se efetiva para quem caminha de forma lenta rumo à segurança celestial mas possui um coração mortalmente algemado e apaixonado nas vielas amaldiçoadas e efêmeras da Babilônia decadente que vai sucumbir.
FAQ
Qual era realmente o principal problema teológico das planícies de Sodoma? Embora as manifestações flagrantes e assombrosas de abuso e licenciosidade incontroláveis tenham se tornado o símbolo indiscutível das regiões, e com total amparo bíblico nos episódios da multidão da "porta", os profetas, particularmente como Ezequiel (Ez 16:49), demonstram categoricamente que a soberba infeliz, a intolerância orgulhosa de sua fartura extravagante de pão e opulência os isolou radicalmente de ter qualquer decência complacente perante os estrangeiros. Uma prepotência carnal satânica dominou o cume daquela civilização.
Deus mudou de ideia durante as petições de intercessão sucessivas de Abraão? Jamais. Em momento algum a antropologia bíblica e os sentimentos expressos da imutabilidade e presciência abissal da Soberania do El Shaddai e do Juiz (Malaquias 3:6) colidem com petições exaustivas do ser humano de fé genuína implorante, onde supostamente Deus não saberia antes do colapso o exato e ínfimo número dos habitantes eleitos. Em vez disso, Deus estimula o fiel a participar amorosamente do conselho salvífico! Através das amorosas condescendências na "redução do cálculo" pedida (50 para 40, até 10!), Deus treinou magistralmente a fé madura, o fervor pastoral da misericórdia do patriarca, e evidenciou irretocavelmente que o juízo subsequente lançado lá era irrevogável e totalmente, absurdamente justo sem uma voz remanescente a clamar na planície pecadora.
Há lições cristológicas escondidas ou claras neste julgamento? Totalmente. Toda a manifestação da ira descida que varreu em cinzas e chofre sobre o orgulho decaído sem refúgio natural terreno (2 Pedro 2:6-9), atesta veementemente em arquétipo a assombrosa força da Ira justa esmagadora advinda de Deus o Pai pelo terrível desprezo persistente perante Si nas eras finais (ver livro de Apocalipse inteiro). A Igreja genuinamente eleita reflete Ló (salvo no meio da degradação de modo gracioso e imerecido, em grande parte pelas promessas de intercessão abrahâmicas pautadas em Graça — 19:29) que é puxada pela própria destra imponente do Cordeiro Vivo (nos anjos) rumo aos montes, nos libertando poderosamente da letal atração avassaladora de "olhar apaixonadamente" para este breve sistema sem salvação condenado a ruína.
